Tocantins
Escândalos em Série: Do Caso Master ao INSS, Quem Paga a Conta é o Povo
Muitas vezes, quem acorda cedo para trabalhar sente que o Brasil funciona em duas velocidades. Existe o país do povo que produz, trabalha, paga impostos e sustenta a economia. Há também o país de Brasília, cada vez mais distante dessa realidade, mergulhado em disputas de poder.
A verdade é dura: em muitos momentos, a realidade parece superar a ficção. Como advogado e também como alguém que vive o Brasil produtivo, observo com preocupação o coração da República sendo pressionado por relações pouco transparentes e interesses que frequentemente se sobrepõem ao interesse público.
Escândalos recentes envolvendo aposentados, instituições financeiras e até autoridades nas mais altas esferas do poder reforçam uma sensação inquietante na sociedade. Cresce a percepção de que o sistema, muitas vezes, passa a funcionar para proteger a si mesmo, e não para servir o cidadão comum.
O modelo institucional brasileiro foi desenhado para operar em equilíbrio. Cada poder deveria fiscalizar o outro, garantindo o funcionamento dos chamados freios e contrapesos. No entanto, o que muitos brasileiros percebem hoje é um silêncio institucional preocupante. O Legislativo evita confrontos com o Judiciário. O Judiciário exerce influência crescente sobre decisões políticas. O Executivo governa frequentemente apoiado nesse arranjo. No fim das contas, surge uma pergunta inevitável: quem vigia os vigilantes?
Para quem acredita no Estado de Direito, o maior risco desse ambiente é a erosão da confiança. Quando cresce a sensação de que as regras do jogo podem mudar conforme os interesses de quem decide, a segurança jurídica começa a se enfraquecer. Sem segurança jurídica, nenhum país prospera.
Essa insegurança não fica restrita aos tribunais ou aos corredores do poder. Ela chega à vida real. Quando investidores percebem instabilidade institucional, o custo do capital sobe, o crédito encurta e projetos importantes deixam de acontecer. É o chamado risco Brasil. No final da cadeia, quem paga essa conta é o cidadão que trabalha, produz e sustenta o país.
O povo brasileiro acorda cedo, enfrenta transporte precário, carga tributária pesada e serviços públicos muitas vezes insuficientes. Ainda assim, continua trabalhando e mantendo a economia em movimento. Enquanto isso, o centro do poder frequentemente parece ocupado por disputas que pouco dialogam com a realidade de quem vive fora dos gabinetes.
Esse descompasso alimenta algo perigoso: o desgaste da confiança nas instituições. Quando parte da sociedade passa a acreditar que as regras não são aplicadas da mesma forma para todos, instala-se um sentimento de desalento. E democracias não sobrevivem por muito tempo quando a confiança desaparece.
Não existe solução mágica para esse cenário. Mas existe um caminho claro: integridade. A República não se sustenta apenas pelas leis escritas. Ela depende da responsabilidade de quem exerce o poder e da vigilância permanente da sociedade.
Investigações precisam ser conduzidas com seriedade. Quem errou deve responder por seus atos, seja empresário, político ou autoridade pública.
O Brasil possui um potencial gigantesco. O que muitas vezes falta não é capacidade produtiva nem talento do seu povo, mas instituições capazes de funcionar com transparência, equilíbrio e responsabilidade.
A pergunta que fica é simples: teremos maturidade para corrigir o rumo ou continuaremos empurrando esse problema para frente até que tudo entre em colapso?
Hidekazu Souza de Oliveira é advogado especialista em direito agrário e ambiental
@hidekazu.adv
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